segunda-feira, 21 de março de 2011

Espontaneamente

Fez-se esperança,
ela subitamente virou para trás.
Ele suspirou,
ela apenas abaixou-se
pegou a presilha e se foi.

Fez-se amizade,
Eles se encontraram no elevador,
Ela pintava os olhos
e não percebeu.

Fez- se humildade,
o rapaz correu até o semáforo
para ajudar a velhinha atravessar,
ela reclamava da vida ,
e não o acolheu.

Fez-se amor,
Ele já havia sofrido demais
e não reconheceu.

Fez-se nada,
Faz-se nada a cada manhã,
cada vez mais,
desaprendemos a sentir,
espontaneamente

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"deixa que o sol te veja"

As vezes acontecem coisas na nossa vida que a gente não entende e talvez nunca vai entender, porque as pessoas que a gente gosta um dia tem que ir embora. É estranho, porque ao mesmo tempo que é a certeza que todos nós temos, é a verdade que nunca esperamos.
Nestes últimos dias, essa verdade bateu na minha porta, e por mais que eu não quisesse abrir, tem coisas que não podemos evitar. Afinal assim é o ciclo da nossa vida, biologicamente ou religiosamente pensando.
E no fundo, por mais que a saudade chegue a sufocar, cada pessoa que passa pela nossa vida, leva um pouco de nós e deixa um pouco de si. Felizmente, essas pessoas que se foram só deixaram coisas boas em mim, e espero que tenham levado coisas boas de mim também.
Nos últimos dias, enquanto protestos aconteciam no Egito, Big Brother na televisão, e o verão rachava minha janela, não senti vontade de me levantar da cama. Me agarrei nas minhas lembranças e me isolei do mundo ao meu redor por elas.
Ia até a praça e via pessoas sorrindo e minha vontade era pegá-las pelo pescoço e contar pra elas que não eram felizes, que eu havia sido feliz e esse sentimento pertencia apenas a mim e as minhas lembranças. Egoísmo.
Pela manhã o sol estava lindo como nos outros dias, mas foi diferente, resolvi abrir a janela e deixar o sol me ver, e sorri. Não sorri porque eu estava feliz, mas porque compreendi que devo voltar a ser feliz.
Estamos nesse mundo, não só por nós mesmos, mas por todos aqueles que caminham ao nosso lado, e se nós não tivermos forças, é por eles que devemos acordar e deixar o sol entrar todas as manhãs.
Quanto mais próximo estivermos, mais fortes seremos.
Meus sinceros desejos de dias brilhantes para cada um de nós.

Um abraço forte e especial para todos aqueles que de alguma forma estiveram comigo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Vai voar meu querido pássaro


Certo dia conheci um pássaro. Quando ele se aproximou tive a certeza que teria um amigo para vida toda, e tive, aliás, tenho.

Entre tantos vais e véns da vida sempre que tinha um tempinho ou que sentia saudades voltava para reencontrá-lo e ele sempre me recebia com aquele sorrisão que é só dele.

Hoje senti saudades como nunca e corri para encontrá-lo, mas quando cheguei lá ele não estava. Chorei e sofri como nunca, até que pela primeira vez na vida me dei conta que pássaros tem asas e um dia vão voar.

Pensei que se eu soubesse antes que ele poderia voar teria trancado ele em uma gaiola pra guardá-lo sempre comigo, ainda bem que eu não sabia.

Hoje ele deve estar por aí voando em todas as imensidões que sempre quisemos conhecer levando aquele sorrisão pra imensidão azul.

Sinto falta. Penso nele todos os dias, mas um dia eu ganho asas, aprendo a voar e vamos nos reencontrar.


em memória de Gustavo Mascarenhas Barroso

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Desencontros


Sentiu cheiro de café. Mas não qualquer café, era o café dela. Repentinamente largou as flores e correu para a cozinha, mas não havia nada. Nem café, nem cheiro, muito menos ela.

Sofreu, aliás sofria há 20 anos, a medida que os anos passavam pensava cada vez mais nela, e ela era tudo que ele era capaz de lembrar. Desde aquela tarde que saiu para comprar cigarros e nunca mais soube voltar, não sabia mais seu nome, seu endereço, se era casado, se tinha filhos... sabia dela, apenas ela.

E uma coisa garanto, a pior dor é daqueles que não sabem, não se sabe se chora pela morte, não se sabe como procurar pela vida, nada.

Talvez ela pudesse ser uma das velhinhas que fazer tricot na sala ao lado, ou uma das velhas que roncam durante a noite e atordoam seus sonhos, até quem sabe já tenha cheiro de crisântemo, que cheira como a morte, quando se está morto.

E por não saber, chamou-a de margarida, bela como as flores que embelezam o abrigo imundo que guarda as memórias e as saudades daquelas tantas histórias escritas, vividas e esquecidas pelo alzheimer dos senhores e senhoras que ali residem.

Esperava todos os dias em frente ao portão por alguém que viesse te procurar, esse alguém sentaria e explicaria tudo que havia ocorrido naquela tarde e nos 20 anos seguintes, traria uma criança no colo e a apresentaria como Esperança, sua bisneta.

Em seguida explicaria que o nome da criança representava o sentimento da família em relação ao seu sumiço, contaria quanta falta ele havia feito como pai, marido e avó. Se abraçariam, voltariam para casa e ele jamais sofreria novamente.

Infelizmente, nem ao menos esperança ele nunca encontrou. Mas em uma tarde fria de outono, do sono após ao café, ele não acordou. Chamaram a ambulância, Dra. Esperança, bisneta de Margarida, correu para tentar salvar o velhote. Tarde demais, a angústia havia chegado primeiro.

sábado, 27 de novembro de 2010

Carta ao povo

Prezados,


Sim, sou a favor dos direitos humanos, principalmente porque esta guerra não começou hoje e não vai acabar hoje, nem amanhã, nem daqui quinze dias.
Gostaria de lembrar que existem moradores, existem crianças lá dentro, e existe memória. Sim, porque a polícia pode entrar lá agora e matar, cem, duzentos ou mil traficantes, e estampar nas capas de todos os noticiários que obteve êxito na operação.
Mas todas as crianças lá dentro vão lembrar dos tiros que furaram a parede e dos momentos de pânico que viveram na tarde de hoje e daqui três semanas existirão mais centenas de traficantes, não é com guerra que se combate a cultura do tráfico.
Gostaria de lembrar que no Complexo do Alemão tem apenas 2 escolas, para uma população de 65 mil habitantes. O Estado que sobe o morro, é o do caveirão, e e este o Estado que vai ficar na memória das crianças, das mulheres, dos trabalhadores, dos idosos de hoje.
Me dá arrepios ouvir o apresentador do noticiário mandando o traficante "ser esperto pelo menos uma vez na vida", e eu me pergunto e te pergunto, quais foram as oportunidades dadas para eles serem espertos na vida? Gostaria de lembrar que são 2 escolas para 65 mil habitantes e olha que nem estou entrando no mérito da qualidade das escolas.
Então é muito fácil colocar a culpa nos usuários de drogas, na população da favela, do que perceber que na realidade a culpa é do Estado que governa pra quase ninguém, e de quem fica mantendo esse sistema de merda.
Não tô tirando a culpa dos criminosos, pelo contrário, gostaria apenas de mostrar que o criminoso é fruto de uma sociedade que não foi criada por ele, nem tampouco escolhida por ele pra viver, ou alguém conhece algum morador da Zona Sul que achou legal mudar pro morro e entrar pro tráfico?
Espero de verdade o sucesso da negociação, para que a paz seja instaurada sem precisar derramar mais sangue, e que pela primeira vez esta população possa conhecer um estado que não seja fardado de preto e com fuzis na mão.

Com esperança,
Fernanda.

domingo, 14 de novembro de 2010

laços

Eu amei.
Cada palavra, cada fotografia imaginada mas não realizada, cada bom dia, cada café da manhã na cama com beijos recheados de sono.
Tanto amei que quando você foi embora, não chorei.
Olho os presentes dos padrinhos amontoados pela sala e os convites do casamento que foram devolvidos, e mesmo diante deles sou incapaz de chorar. E não chorarei, as pessoas que pensem o que quiserem pensar, não me importo.
No dia que você fechou esta porta com a mochila nas costas dizendo que jamais voltaria, eu entendi o que era o amor. E ele é isso que eu não sei decifrar, isso que não me deixa chorar, porque me conforta nos nossos sonhos e nas nossas lembranças.
Te amo porque sei que você deveria ir embora, porque não te quero só pra mim, te quero para você.
Não quero te pedir pra voltar, e não sei se quero que você volte. Quero sentir o aperto no estômago a cada vez que o telefone tocar, ou o carteiro chegar, mesmo sabendo que não será você.
Não me dói você ter ido embora, nem me entusiasma o fato de você voltar.
Eu te amo, simplesmente por te amar, e isso cabe apenas a mim.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Triângulo Perfeito

Um e outro,
dois.
Na verdade, são três:
um, outro e os dois.

Três e a cumplicidade,
Dois e a vaidade,
Um e a saudade.