Praia de Botafogo, seis horas da noite, ônibus lotado.
Que tal um pouco de teoria sociológica? Ler Gilberto Freyre não me faz bem enquanto tem um suvaco fedido acima da minha cabeça.
Romance? O que pode ser excitante enquanto o ônibus saculeja e as pessoas caem em cima de você.
Talvez um pouco de música? Não, o "nem" lá de trás já se encarregou de tal incumbência.
Observar a paisagem, parece que convém.
E lá está ela, suja e linda.
A enseada de tantos poetas, tantos músicos, tantos músicos e poetas.
A mulher ao lado me cutuca, quer reclamar da vida.
NÃO FODE!
A mim já cabe minhas infelicidades, não preciso saber a de mais ninguém.
Engraçado, como ninguém te cutuca pra dizer que está feliz, ou seja, a menos que seja pra me contar que ganhou na loto ou vai se casar, não me cutuque, porque eu não quero saber.
A moça se levanta, senta um velhinho no lugar, me oferece uma caneta, a essa altura já fingi que voltei a estudar, é a melhor maneira de se tentar cortar um assunto. Aceito a caneta, obrigada. Logo em seguida, o esperado, um cartão de uma dessas igrejas neo-pentecostais, Tipo I Igreja do Canfundé do Judas, minha mãe sempre fala que estou precisando de Deus... Obrigada sou ateu.
Mais um que se vai... A essa altura já estou na Praia do Flamengo.
Volto a olhar a paisagem, pessoas jogam bola e o clima parece bem agradável, quem dera eu pudesse estar ali também, pensei em descer do ônibus, tomar uma água de coco, não dá, tem trabalho de CRB.
Agora senta um "nem" do meu lado, o "Relaxa e quica" adentra meus ouvidos de uma maneira que eu penso que meus tímpanos vão estourar, maldito infeliz que inventou caixa de som em celular, bons tempos quando cada um vivia feliz com seu walkman. Ao pensar isso, me senti velha e ranzinza, sobretudo, porque tinha um grupo de estudantes fazendo a maior algazarra no banco de trás, e eu estava achando tudo aquilo um porre. Logo eu, a líder da bagunça.
Ufa, vagou lugar lá no fundão, o "nem" vai pra lá e leva a turma com ele, enfim paz.
Um velhinho com aspecto de cansado senta ao meu lado, ele está dormindo, maravilha, a esta altura já estou na Lapa e o ônibus praticamente vazio. Ele começa a roncar, legal, pelo menos não tá me enchendo, fim da Men de Sá, preciso descer tio...
-Tio, Tio, Tio.....
silêncio.
ah, legal passou do meu ponto.
Filho da puta, vou ter que andar pra caramba..
Pegar o ônibus as 18h, me deixa velha e ranzinza...
e amanhã tem mais.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
aquelas suas cuecas furadas
Tire seu corpo molhado de cima de mim!
Recolha seus sentimentos jogados no chão
e vá embora!
Cansei de sentimentos sujos,
não há mais porque esfregar roupas que não se encaixam mais em meu corpo
Leve todos seus trapos
e não tente costurá-los
eu não costurarei os meus.
Depois de ontem,
acordei cinco quilos mais gorda,
ou talvez mais magra,
não me importa.
não cabe mais em mim.
Vou refazer meu guarda-roupa,
só não aceito os retalhos que estão no chão,
vá embora,
e não se esqueça das cuecas na lavanderia.
Recolha seus sentimentos jogados no chão
e vá embora!
Cansei de sentimentos sujos,
não há mais porque esfregar roupas que não se encaixam mais em meu corpo
Leve todos seus trapos
e não tente costurá-los
eu não costurarei os meus.
Depois de ontem,
acordei cinco quilos mais gorda,
ou talvez mais magra,
não me importa.
não cabe mais em mim.
Vou refazer meu guarda-roupa,
só não aceito os retalhos que estão no chão,
vá embora,
e não se esqueça das cuecas na lavanderia.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
O narrador
"O romance não é significativo por descrever pedagogicamente um destino alheio, mas porque esse destino alheio, graças a chama que o consome, pode dar-nos o calor que não podemos encontrar no nosso próprio destino. O que seduz o leitor no romance é a esperança de aquecer sua vida gelada com a morte descrita no livro."
(Walter Benjamin)
(Walter Benjamin)
sábado, 15 de maio de 2010
Antropologia para criancinhas.
Essa semana aulas de filosofia na UFRJ e uma conversa com o Aviner Escobar(anotem esse nome, provavelmente vai fazer parte do futuro da sociologia), e fiquei pensando sobre a antropologia. Será que uma ciência baseada no relativismo, pode ser tão determinista? E será que dê fato é determinista?
Atribuir tudo a cultura não é tão ruim como atribuir tudo a economia, ou a filosofia e até mesmo a história?
Por causa disso, nós antropólogos em formação e os formados também, muitas vezes somos ridicularizados por estudar grupos isolados, contar "histórinhas" interessantes e outras coisas... Se isso for mesmo verdade, e não estou dizendo se é ou não,e daí? Porque as histórinhas que a antropologia conta são menos verdadeiras ou menos importantes que as demais?
Desde que tive a primeira aula de Antropologia, desde que li "OS SONACIREMA", "RELATIVIZANDO" e demais, me considero uma pessoa diferente, isso porque o relevante pra antropologia não é saber qual o ritual de casamento ou de funeral dos Trobiandeses ou que determinada tribo se pinta de tal forma, mas sim perceber que são construções culturais, que também existe em nossa sociedade.
"Antropologizar" é parar pra pensar que acreditar em rituais mágicos de cura e acreditar em remédios ou em médicos, é exatamente a mesma coisa.
Se teve uma coisa que aprendi com a Antropologia foi a quebrar preconceitos, e isso é relevante e muito, principalmente em uma sociedade tão preconceituosa e etnocêntrica como a nossa.
Será então, que ao invés de forçarmos convívio entre pessoas diferentes em nome da construção da cidadania, não deveríamos primeiro desmistificar tabus?
Não se trata simplesmente pensar no outro, mas se pensar como outro.
Antropologia é uma base pedagógica muito rica para criar respeito entre as pessoas e para mim essa explicação me basta.
Atribuir tudo a cultura não é tão ruim como atribuir tudo a economia, ou a filosofia e até mesmo a história?
Por causa disso, nós antropólogos em formação e os formados também, muitas vezes somos ridicularizados por estudar grupos isolados, contar "histórinhas" interessantes e outras coisas... Se isso for mesmo verdade, e não estou dizendo se é ou não,e daí? Porque as histórinhas que a antropologia conta são menos verdadeiras ou menos importantes que as demais?
Desde que tive a primeira aula de Antropologia, desde que li "OS SONACIREMA", "RELATIVIZANDO" e demais, me considero uma pessoa diferente, isso porque o relevante pra antropologia não é saber qual o ritual de casamento ou de funeral dos Trobiandeses ou que determinada tribo se pinta de tal forma, mas sim perceber que são construções culturais, que também existe em nossa sociedade.
"Antropologizar" é parar pra pensar que acreditar em rituais mágicos de cura e acreditar em remédios ou em médicos, é exatamente a mesma coisa.
Se teve uma coisa que aprendi com a Antropologia foi a quebrar preconceitos, e isso é relevante e muito, principalmente em uma sociedade tão preconceituosa e etnocêntrica como a nossa.
Será então, que ao invés de forçarmos convívio entre pessoas diferentes em nome da construção da cidadania, não deveríamos primeiro desmistificar tabus?
Não se trata simplesmente pensar no outro, mas se pensar como outro.
Antropologia é uma base pedagógica muito rica para criar respeito entre as pessoas e para mim essa explicação me basta.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
doce desabafo
Um dia busquei em você tudo que não podia encontrar em mim...
E encontrei
Você era a paz, o sorriso inesperado, a felicidade descontraída, a alegria das minhas manhãs;
Cheguei a pensar que eu não poderia viver sem você,
mas eu poderia.
Hoje, te olhar não me desperta paz, nem sorrisos, nem alegria.
E isso não diz respeito a você, mas a mim.
Agora é no espelho que encontro felicidade é nos meus dias que encontro o inesperado e as vezes me pego sorrindo.
Não nego o quanto você foi especial, mas felizmente não preciso mais de você.
E encontrei
Você era a paz, o sorriso inesperado, a felicidade descontraída, a alegria das minhas manhãs;
Cheguei a pensar que eu não poderia viver sem você,
mas eu poderia.
Hoje, te olhar não me desperta paz, nem sorrisos, nem alegria.
E isso não diz respeito a você, mas a mim.
Agora é no espelho que encontro felicidade é nos meus dias que encontro o inesperado e as vezes me pego sorrindo.
Não nego o quanto você foi especial, mas felizmente não preciso mais de você.
sábado, 8 de maio de 2010
códigos
Existe um claro limite entre o que cabe e o que deveria caber em um papel. Porque escrever o que é senão exteriorizar os pensamentos mais longíquos, abstratos ou incoerentes que circulam nossas mentes.
Falo isso porque a partir do momento que escrevo nada mais é meu. Ouvi essa semana que o escrito é do leitor, permita-me tal retificação, mas o escrito é do papel.
Quando se escolhe as palavras certas, a sonoridade ideal, a estética formal ou a despojada, perde-se no conteúdo. Até porque o grande problema da escrita é saber que alguém vai ler.
Saber que alguém vai ler, compromete nossas verdades, pois é em busca do prestígio literário que omitímos aquilo que pensamos.
Isso porque o papel é a prova do pensado e o medo do ridículo nos induz a "estetizar" o que realmente queriamos escrever. E os diários não escapam disso, afinal, não queremos ser ridículo para nós mesmos.
É na mente que somos heróis e bandidos, frígidas e perversos, simpáticos e repugnantes; ali que se estabelece nossa "identidade imáginaria", perdão aos antropólogos de plantão por tal absurdo, mas não entendo, porque controlar e regular meus impulsos interiores e deixar ocupá-los um precioso espaço ao invés de externalizá-los e desocupar a cabeça
Porque ser "humano" é renegar nossa humanidade e estar cada vez mais inserido nos moldes pré -estabelecidos?
Falo isso, porque acabei de apagar o post que estava embaixo
Falo isso porque a partir do momento que escrevo nada mais é meu. Ouvi essa semana que o escrito é do leitor, permita-me tal retificação, mas o escrito é do papel.
Quando se escolhe as palavras certas, a sonoridade ideal, a estética formal ou a despojada, perde-se no conteúdo. Até porque o grande problema da escrita é saber que alguém vai ler.
Saber que alguém vai ler, compromete nossas verdades, pois é em busca do prestígio literário que omitímos aquilo que pensamos.
Isso porque o papel é a prova do pensado e o medo do ridículo nos induz a "estetizar" o que realmente queriamos escrever. E os diários não escapam disso, afinal, não queremos ser ridículo para nós mesmos.
É na mente que somos heróis e bandidos, frígidas e perversos, simpáticos e repugnantes; ali que se estabelece nossa "identidade imáginaria", perdão aos antropólogos de plantão por tal absurdo, mas não entendo, porque controlar e regular meus impulsos interiores e deixar ocupá-los um precioso espaço ao invés de externalizá-los e desocupar a cabeça
Porque ser "humano" é renegar nossa humanidade e estar cada vez mais inserido nos moldes pré -estabelecidos?
Falo isso, porque acabei de apagar o post que estava embaixo
sexta-feira, 30 de abril de 2010
admirável velho mundo.
Outono, época que as ruas se enchem de folhas, as árvores parecem secas e calor e frio se misturam deliciosamente.
Eram amigos, apenas amigos, desses que não se encontram mais no orkut, que nunca dizem que se amam e que abrem a porta da nossa geladeira. Caminhavam pelas ruas de Santa Teresa, buscavam um bar aberto as sete horas da manhã. 4,70, o valor das passagens até a Tijuca, era tudo o que tinham, estavam dispostos a trocar toda sua fortuna pelo prazer de uma garrafa de cerveja gelada, era apenas uma cerveja, isto é o que você leitor pode vir a pensar, mas definitivamente não era.
A cerveja era o ápice da realização naquele momento, se pudessem fazer qualquer desejo naquele momento, certamente seria aquela garrafa de cerveja; mulheres, dinheiro, mulheres e dinheiro, mulheres,dinheiro e sucesso, um caminhão ou uma fábrica toda de cerveja, bobagem, nada dessas banalidades substituiria aquela garrafa de cerveja.
Há aquela altura do campeonato não importava o quanto teriam que andar até em casa se gastassem aquele dinheiro com o mel, nem que demorassem toda a eternidade, nada mais importava, nada poderia importar.
Antes, sair para tomar uma cerveja seria a coisa mais normal e banal do mundo, como se levantar e escovar os dentes, todavia agora a situação era outra.
As pequenas ruas que onde antes corriam atras dos bondes, pareciam longas e intermináveis e apesar do cansaço eles não desistiram, seguiam vagarosamente por aquelas vielas, conversando o mesmo de sempre, bundas.
Chegaram até o bar, ou seria melhor dizer o templo, afinal não se tratava apenas de um bar, era um local de adoração, o seu zé, a mesa ideal, o líquido, a temperatura, tudo deveria estar nos conformes.
Entraram no bar e avistaram a mesa do canto esquerdo, abaixo da janela, ela continuava ali, intacta, inclusive com os arranhões no plástico com as iniciais "PJBA", lágrimas surgiram dos olhos dos três e com um nó na garganta se sentaram na mesa, mas um lugar estava vazio.
Haviam se passado 50 anos, Paulo, Bruno e Adriano voltavam do enterro de José, pela primeira vez a turma da esquina não estava completa, e dali por diante não estariam nunca mais, porque aqueles 50 anos se passaram tão rápido, eles não conseguiam entender; dinheiro, trabalho, viagens, compras de supermercado e tudo mais aquilo que parecia importante, não deixou espaço para idiotices como a cerveja de domingo, mas agora tudo era diferente, naquele momento eles perceberam que trocaram tudo que não era importante, por aquilo que realmente valia a pena. Tratava-se de felicidade, como uma cerveja causava mais felicidade do que os vinte e cinco anos dedicados aquela empresa, a nova tv de LCD, o i-phone, as idas anuais a Europa, nada, nada era o suficiente para preencher o espaço da cerveja de domingo. Até que no meio das lamentações aparece o Zé, abre a cerveja, enche os copos baratos. Um brinde, as bundas, é claro. E mais uma vez as bundas foram o assunto da manhã inteira. Depois disso, nunca mais se viram, ou melhor, se encontraram, mais duas vezes, nos outros dois velórios, sempre seguidos do velho ritual.
Devem estar por aí, em algum lugar com um copo barato, uma cerveja gelada e falando sobre bundas.
Eram amigos, apenas amigos, desses que não se encontram mais no orkut, que nunca dizem que se amam e que abrem a porta da nossa geladeira. Caminhavam pelas ruas de Santa Teresa, buscavam um bar aberto as sete horas da manhã. 4,70, o valor das passagens até a Tijuca, era tudo o que tinham, estavam dispostos a trocar toda sua fortuna pelo prazer de uma garrafa de cerveja gelada, era apenas uma cerveja, isto é o que você leitor pode vir a pensar, mas definitivamente não era.
A cerveja era o ápice da realização naquele momento, se pudessem fazer qualquer desejo naquele momento, certamente seria aquela garrafa de cerveja; mulheres, dinheiro, mulheres e dinheiro, mulheres,dinheiro e sucesso, um caminhão ou uma fábrica toda de cerveja, bobagem, nada dessas banalidades substituiria aquela garrafa de cerveja.
Há aquela altura do campeonato não importava o quanto teriam que andar até em casa se gastassem aquele dinheiro com o mel, nem que demorassem toda a eternidade, nada mais importava, nada poderia importar.
Antes, sair para tomar uma cerveja seria a coisa mais normal e banal do mundo, como se levantar e escovar os dentes, todavia agora a situação era outra.
As pequenas ruas que onde antes corriam atras dos bondes, pareciam longas e intermináveis e apesar do cansaço eles não desistiram, seguiam vagarosamente por aquelas vielas, conversando o mesmo de sempre, bundas.
Chegaram até o bar, ou seria melhor dizer o templo, afinal não se tratava apenas de um bar, era um local de adoração, o seu zé, a mesa ideal, o líquido, a temperatura, tudo deveria estar nos conformes.
Entraram no bar e avistaram a mesa do canto esquerdo, abaixo da janela, ela continuava ali, intacta, inclusive com os arranhões no plástico com as iniciais "PJBA", lágrimas surgiram dos olhos dos três e com um nó na garganta se sentaram na mesa, mas um lugar estava vazio.
Haviam se passado 50 anos, Paulo, Bruno e Adriano voltavam do enterro de José, pela primeira vez a turma da esquina não estava completa, e dali por diante não estariam nunca mais, porque aqueles 50 anos se passaram tão rápido, eles não conseguiam entender; dinheiro, trabalho, viagens, compras de supermercado e tudo mais aquilo que parecia importante, não deixou espaço para idiotices como a cerveja de domingo, mas agora tudo era diferente, naquele momento eles perceberam que trocaram tudo que não era importante, por aquilo que realmente valia a pena. Tratava-se de felicidade, como uma cerveja causava mais felicidade do que os vinte e cinco anos dedicados aquela empresa, a nova tv de LCD, o i-phone, as idas anuais a Europa, nada, nada era o suficiente para preencher o espaço da cerveja de domingo. Até que no meio das lamentações aparece o Zé, abre a cerveja, enche os copos baratos. Um brinde, as bundas, é claro. E mais uma vez as bundas foram o assunto da manhã inteira. Depois disso, nunca mais se viram, ou melhor, se encontraram, mais duas vezes, nos outros dois velórios, sempre seguidos do velho ritual.
Devem estar por aí, em algum lugar com um copo barato, uma cerveja gelada e falando sobre bundas.
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